segunda-feira, fevereiro 02, 2026

Ainda Forasteiro

Fernando Schweitzer - Jornalista e dramaturgo 

Os cinco sentidos — tato, paladar, olfato, visão e audição — são a forma mais primária de nos orientarmos no mundo. É por eles que reconhecemos perigo, afeto, pertencimento. Mas existe um sexto sentido, silencioso, pouco estudado e profundamente persistente: o de não pertencer. Foi através dele que aprendi a reconhecer os forasteiros. Talvez por isso eu os identifique com tanta facilidade. Sempre é em cada lugar em que vivi estive rodeado de estrangeiros e pessoas que não são nativos da cidade em que me encontro. 

O primeiro deles sou eu mesmo.
Comecei a cantar aos nove anos, em concursos musicais infantis, quando a voz ainda era promessa e o corpo obedecia sem resistência. Aos treze, tudo mudou. Uma encefalite — ou, como ficou registrada na memória e nos papéis, uma incefalite — me arrancou o controle da voz, comprometeu parcialmente os movimentos do lado esquerdo do corpo e me lançou a setenta e quatro dias de internação hospitalar após uma intervenção cirúrgica. Aos quatorze, ainda em convalescença, encontrei o teatro. Antes disso, aos doze, já havia deixado minha cidade natal. Aos treze, fui morar na casa da minha avó paterna para atravessar o período de recuperação. Desde cedo, deslocado. Desde cedo, fora do lugar.
“Através do teatro comecei a mudar minha percepção sobre mim e sobre o que é ser um forasteiro.” É a partir daí que os forasteiros ganham rosto.

O primeiro, como já disse, sou eu: Fernando Schweitzer, jornalista, ator, cantor interrompido e reinventado, alguém que nunca deixou de atravessar fronteiras — mesmo quando aparentemente parado. O segundo é Jack Beraum, ator e cantor peruano que conheci em Buenos Aires. Nos palcos argentinos não criamos apenas espetáculos, mas cumplicidades. Jack carrega o exílio como quem carrega um sotaque: com naturalidade. Talvez por isso nossa amizade tenha resistido ao tempo, às cidades e às distâncias.

O terceiro forasteiro é Omar Millalonco, jornalista e comunicador, também radicado em Buenos Aires. Nos conhecemos em uma maratona de Comunicação e Jornalismo na UBA, dessas jornadas acadêmicas em que se troca mais vida do que certificados. Foi através de mim que Omar conheceu Jack, e desde então formamos uma espécie de triângulo afetivo de estrangeiros persistentes.

O quarto é Cristian Cotrina, biólogo peruano formado pela UBA. Dividimos uma casa de aluguel coletivo em Buenos Aires e, durante a pandemia, dividimos também o asfalto. Enquanto o mundo parava, pedalávamos: entregadores de bicicleta na capital argentina, empurrando comida, contas a pagar e sonhos pelas mesmas ruas.

O quinto forasteiro é Faldrán, estudante de intercâmbio em fitoterapia na UDESC, em Santa Catarina. Galego como eu. Nos conhecemos em um grupo de conversação de idiomas na UFSC, em Florianópolis. Ele foi meu aluno de português, mas, como todo encontro entre forasteiros, o aprendizado foi sempre mútuo.

Há então um terceiro movimento nessa história, quando os caminhos voltam a se cruzar. Omar Millalonco vem passar férias em Florianópolis e nos reencontramos. Caminhamos pela cidade. Apresentei a ele a cultura, os ritmos, a idiossincrasia brasileira — aquilo que não cabe nos guias turísticos. Florianópolis, vista por quem mora, é sempre outra coisa: menos cartão-postal, mais sobrevivência cotidiana. Falar do Brasil para um argentino, em terras brasileiras, é também falar de mim mesmo, desse lugar instável entre o dentro e o fora.

A noite começa a se inclinar para o fim ao mesmo tempo de maneira comum e simbólica. Apesar do medo de andar de moto, peço uma corrida por aplicativo desde a Lagoa da Conceição até minha casa, na região continental da cidade. São cerca de trinta quilômetros de vento, asfalto e pensamento. No trajeto, reflito que os forasteiros sempre se querem muito — talvez porque reconheçam no outro a mesma rachadura.

Pouco antes, em meio ao ensaio de Carnaval da escola Unidos da Ilha da Magia, encontro Faldrán. Entre risos, suor e música, ele me provoca a fazer uma brincadeira com Omar: abordá-lo em espanhol, no meio da festa, como se ele fosse um agente secreto que o estivesse investigando. Omar, argentino, cercado por tambores brasileiros, por alguns segundos não sabe se ri ou se foge. A pegadinha funciona porque todo forasteiro está sempre atento. A poucos instantes encontrei uma amiga e forasteira gaúcha radicada em Floripa com seu filho que estava de aniversário. Uma das poucas pessoas de meu curso de guia de turismo com quem ainda tenho contato... Sempre estou em meio a não nativos, pensei.

“Não pude me despedir quando me fui de Buenos Aires de ninguém, parti para Florianópolis de ônibus, via a tríplice fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai. Ao reencontrar agora Omar, meu amigo e colega de profissão, jornalista, fui tomado por várias reflexões. Uma delas é que eu gostava mais de ser forasteiro na Argentina do que no Brasil. Depois de cinco anos preso pela pobreza em Florianópolis, de ter me formado guia de turismo nesta cidade e, mesmo tendo outras formações acadêmicas, enviado mais de cem mil currículos nesse período… sigo apenas sendo um pobre forasteiro. Ou seria eu um forasteiro pobre?”

Este artigo não tem nenhum objeto de estudo ou objetivo didático, apenas é um devaneio meu durante uma viagem de moto entre a Lagoa da Conceição e o continente na cidade de Florianópolis. Mas loucura pouca é bobagem. Comecei a fazer uma analogia desconexa neste trajeto de moto, entre o medo deste veiculo e o devaneio, defini paralelos:

Fernando Schweitzer — A Audição
A audição é o sentido que nasce primeiro e, paradoxalmente, um dos mais frágeis. É também o único que não se pode desligar completamente. Fernando é a audição porque sua história começa pela voz — e pela perda dela. Cantar foi o primeiro território de pertencimento, e o silêncio imposto pela doença transformou o ouvir em sobrevivência. Antes de voltar a falar em cena, foi preciso escutar: o corpo, o limite, o tempo, o outro. Como a audição, Fernando capta o que não é dito, vive atento às nuances, aos deslocamentos sutis. O forasteiro que escuta é aquele que aprende a existir antes de se impor.

Jack Beraum — A Visão
Jack é a visão porque o palco é, antes de tudo, um espaço de ser visto — e de ver o outro. Ele carrega o exílio como estética, como presença visível e assumida. Nos espetáculos compartilhados, Jack ajuda a organizar o caos em imagem, a dar forma ao sentimento difuso de não pertencer. A visão é o sentido que cria horizonte, que permite imaginar futuro mesmo à distância. Jack vê longe, vê fora, e ensina que o estrangeiro também pode ocupar o centro do quadro.

Omar Millalonco — A Palavra (Paladar)
Omar é o paladar porque é o sentido do gosto construído — ninguém nasce gostando de tudo; aprende-se. Jornalista e comunicador, ele mastiga o mundo antes de engolir. O paladar exige crítica, comparação, memória. Omar transforma experiência em narrativa digerível, dá sabor ao que poderia ser apenas ruído. Como o paladar, ele distingue, provoca, incomoda e, às vezes, demora a agradar — mas quando agrada, fica.

Cristian Cotrina — O Tato
Cristian é o tato porque sua história é a do contato direto com a matéria da vida. Bicicleta, asfalto, mochila, entrega, pandemia. O tato é o sentido da sobrevivência imediata, daquilo que confirma: estou aqui, existo, sinto. Dividir casa, dividir trabalho, dividir silêncio — tudo isso é tato. Cristian representa o forasteiro que aprende o mundo pela pele, pela repetição do gesto, pelo cansaço compartilhado. O tato não idealiza: sustenta.

Faldrán — O Olfato
Faldrán é o olfato porque esse é o sentido da memória involuntária, do reconhecimento sem lógica. Galego em Santa Catarina, ele surge como um cheiro familiar em território estranho. O olfato conecta passado e presente sem pedir permissão, cria intimidade imediata. O reencontro no Carnaval, no meio da multidão, funciona como o cheiro que atravessa a festa e nos leva para casa. Faldrán lembra que o pertencimento às vezes vem sem explicação — apenas acontece. Digo isto porque parecia em meio ao povo nada mais que um brasileiro desfrutando de um ensaio de escola de samba.