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segunda-feira, fevereiro 10, 2025

Trágico: O Repartidor

O jovem – chamemo-lo de Mário, pois todo desgraçado merece ao menos um nome – acordou antes do sol. E antes do sol acordaram suas olheiras, já íntimas do travesseiro barato, compradas em dez vezes sem juros. O despertador, este carrasco eletrônico, guinchou impiedosamente. Mário tateou o escuro do quarto minúsculo, cujo aluguel sugava metade de seu salário, e levantou-se sem heroísmo algum.

Vestiu-se com a dignidade de quem não pode se dar ao luxo de desleixos. O uniforme de repartidor, já meio encardido, apertava-lhe a alma. No espelho trincado, viu-se jovem e cansado. Fez as contas mentalmente: o salário bruto era uma piada de mau gosto; o líquido, um crime. Cada garfada no refeitório era um assalto autorizado pela contabilidade, e o vale-transporte era um bilhete de ida para a resignação.

No ônibus lotado, embalado pelo sacolejo, Mário refletia. Em cada rosto suado, via a mesma expressão: um misto de revolta e aceitação. Sentiu um calor de fornalha, um abafamento de câmara de gás tropical. No rádio do cobrador, um político falava em crescimento econômico. Mário sorriu – um sorriso amargo, digno de um palhaço falido e desfaleceu-se.

Chegar-se-ia ao supermercado, a primeira ordem do dia: "Rápido, rapaz, os clientes não podem esperar!" Ah, os clientes... Criaturas sagradas do capitalismo, superiores até aos reis de outrora. Mário, o repartidor, servia-lhes como um camareiro servia Luís XIV – mas sem perucas ou pompas, apenas com uma sacola de compras e um olhar resignado.

Ao final do expediente, suado e quebrado como um brinquedo velho, Mário pegou novamente o ônibus. O país pegava fogo, mas no fundo tudo estava em perfeita ordem. Sonhou, por um instante, com um mundo justo. Mas o sacolejo do coletivo o fez esmorecer.

Desmaiou, de cansado. Acordará muito depois de sua parada. Ligou ao seu chefe, avisou: Me atrasarei. O quanto? Impossível prever...

Sim. Nosso herói perdeu a batalha. Com mais de hora de atraso chegou e foi demitido por "justa causa".

Não por sois mais, ou menos, apenas por pensar que isso ou aquilo... O seu bando ideologico aqui pouco importa. Se você não teve empatia por Mário, realmente, nada mais que um dia eu venha a dizer importa 

domingo, janeiro 12, 2025

Justiça Social? Os capitalistas disfarçados tem ao menos algo de humor

No corre do dia a dia, a gente aprende a lidar com muita coisa, ou ao menos finge que tenta. A periferia não dá trégua, e o tempo da gente vira moeda de troca pro sistema que só sabe sugar. Acorda 4h, pega dois, três ônibus, enfrenta busão lotado, chega no trampo já cansado, faz jornada de 9 horas, e no fim do dia ainda tem o pesadelo de voltar pra casa. E aí? O que sobra pra viver? Nada.
Quem mora nas quebradas tá ligado: 24 horas no relógio não são para nós. Se 14 vão pro trampo e transporte, o resto é dividir entre banho, comida e, com sorte, um pouco de sono. Viver de verdade? O sonho jamais alcançado se não sois herdeiro. É como se a gente fosse programado pra existir só pra trabalhar e manter a roda girando.

Dizem que o governo é “popular”, mas popular pra quem? Na ponta do lápis, a vida de quem tá na base da pirâmide continua pesada. Justiça social? Não chegará aqui jamais. Cadê o transporte que preste? Cadê salário digno pra gente não depender de trampo explorador 6x1? Cadê política que respeite o tempo da gente? Porque viver não é só respirar, maninho. Viver é ter tempo pra ser humano, pra estar com quem a gente gosta, até com quem a gente não goata, pra ter lazer, pra sonhar. Mas na real, aqui na periferifa, é só correr atrás do básico e olhe lá, e mesmo assim parece que tamo devendo já antes de acordar.
Quando falam de escravidão moderna, não é exagero, é realismo. A gente trabalha pra sobreviver, mas, no fundo, a vida vira só isso: sobreviver. E quem tá no topo? Esses têm tempo. Têm lazer, têm saúde, têm futuro. A gente fica só no “talvez”.

É hora de botar o dedo na ferida? Qual delas? O pobre não tem ferida, tem cicatrizes profundas. Cadê a justiça social de verdade? Porque de promessa vazia a quebrada já tá cheia. Pensa que das 4h que te sobram no dia você já gastou alguns minutos lendo esse artigo... Aí você começou a refletir sobre sua m... De vida.

sexta-feira, dezembro 13, 2024

Como dizer-lhes?


 Parecera-vos, talvez, que nenhum esforço emana de minha alma fatigada em busca de labor digno, um labor que não me atire aos desonrosos soldos de miséria que se me impõem! Jornadas insanas, de seis por um, que dobram o corpo e esmagam o espírito — e mesmo nelas, por males de saúde ou exaustão extrema, fui forçado a apartar-me ou, vilmente, escorraçado fui.

Porém, neste escrito não hei de desfiar, como um novelo cansado, minhas capacitações, artes e saberes, que já me sufocam pela repetição incessante. Ai de mim! Que me adianta falar-vos de meus feitos por terras distantes e minha mestria em ofícios tantos? Até a própria razão me pesa ao relembrá-los, e ao fazê-lo, como eco inútil, sou levado a perguntar:

De que me servem? De que me vale tanta erudição e esforço se o mundo escarra sobre eles com desprezo e zombaria? De que adianta uma bagagem carregada de vida, se a vida em si me a nega?!

"Quando digo que desde 31 de Dezembro de 2021, quando regressei a Florianópolis, já fiz o envio de cerca de 42.398 currículos há muitos que colocam em dúvida." Qual seria a média diaria de envios de currículos até o dia de hoje?

Desde 31 de dezembro de 2021 até hoje, passaram-se 1.078 dias. A média diária de envios de currículos é de aproximadamente 39,33 currículos por dia.

😊 ​​

E se desde então obtive apenas 6 empregos, qual foi a média currículo por emprego?

Se desde 31 de dezembro de 2021 você obteve apenas 6 empregos, a média é de aproximadamente 7.066 currículos enviados por cada emprego obtido.

terça-feira, dezembro 03, 2024

O Silêncio nos Bastidores: Denúncias de Nepotismo e Corrupção nos Processos Seletivos de Meios de Comunicação no Brasil - Por Nando Schweitzer


 "Adoro as publicações no LinkedIn dos meios de comunicação brasileiros, que, se não tens QI, jamais serás chamado sequer para a entrevista por vídeo-chamada." A frase, carregada de ironia e frustração, resume o sentimento de milhares de brasileiros que denunciam a falta de meritocracia e a prevalência de práticas duvidosas no mercado de trabalho, especialmente no setor midiático.

Os relatos, que circulam nas redes sociais e fóruns especializados, levantam suspeitas sobre um sistema de contratações que estaria mais pautado em relações pessoais e troca de favores do que em competências e habilidades. A sigla "QI", popularmente usada para se referir a "Quem Indica", simboliza a essência dessas práticas e uma constante jaz da comunicação no Brasil: indicações internas, nepotismo e conchavos políticos estariam se sobrepondo a critérios técnicos e avaliações justas. Mas até que ponto essa percepção é realidade?

Já consegui trabalhar em uma rádio fora do país, mas em quase uma década após me formar em comunicação social no Brasil, jamais ultrapassei a linha da entrevista laboral. Algo em meus vários artigos publicados e palestras(incluso na pós graduação da ECA-USP) devem estar completamente equivocados e descartadamente fora do nível da grande mídia abaixo a linha do Ecuador. Ao menos deste lado da fronteira, no mercado luso-brasileiro. Ou seria apenas falta de sorte?

O Mercado Impenetrável dos Meios de Comunicação

Mais fechado que orifício de heterossexual bolsonarista o setor de comunicação, pela sua natureza, sempre foi considerado um ambiente de alta competitividade e de difícil acesso. No entanto, denúncias sugerem que a competição muitas vezes é ilusória. "Você pode ter um portfólio impecável e diplomas das melhores universidades, mas sem o contato certo, não passa da primeira triagem", desabafa um profissional que preferiu manter o anonimato. Ele, como muitos outros, acusa grandes redes e agências de comunicação de priorizarem candidatos indicados por figuras influentes ou por familiares dentro da própria empresa.

A situação não é exclusiva de pequenos veículos ou mercados regionais. As acusações de práticas de favoritismo também recaem sobre gigantes da comunicação, incluindo redes de televisão, portais de notícias e agências publicitárias de renome. Para muitos, a "entrevista por vídeo-chamada" – que simbolizaria uma avaliação inicial justa e meritocrática – é algo que só acontece após a aprovação tácita de uma indicação interna.

Nepotismo e Corrupção: Um Problema Sistêmico

Especialistas apontam que o problema não se limita à comunicação. O nepotismo e as trocas de favores são historicamente enraizados em diversas indústrias brasileiras. Porém, a relevância social e o papel crítico da mídia tornam essas práticas ainda mais preocupantes no setor. "A mídia tem o papel de fiscalizar o poder e denunciar irregularidades, mas como esperar que isso aconteça se seus próprios processos internos não são transparentes?", questiona a socióloga Lígia Santos.

Além disso, muitos profissionais relatam a existência de "máfias internas" em que grupos de funcionários – geralmente em posições estratégicas – controlam quem entra e quem avança nas hierarquias. "É um ciclo vicioso. Só entra quem é da panelinha, e isso perpetua a exclusão de talentos que poderiam trazer diversidade e inovação para o setor", diz um jornalista veterano.

A Luta por Transparência Existe?

Embora os desafios sejam grandes, há iniciativas buscando maior transparência nos processos seletivos. Algumas empresas começaram a implementar políticas de recrutamento anônimas, nas quais os currículos são avaliados sem informações pessoais. Porém, o alcance dessas práticas ainda é limitado.

Plataformas como o LinkedIn também vêm desempenhando um papel importante ao dar voz aos candidatos. Postagens como a citada no início deste artigo frequentemente viralizam, gerando debates acalorados sobre a ética no mercado de trabalho brasileiro. Além disso, organizações como a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e sindicatos têm recebido denúncias, pressionando por mudanças estruturais.

O Que Estaria em Jogo?

A manutenção manutenção do status-quo e de um sistema baseado em indicações e conchavos afeta não apenas os profissionais diretamente prejudicados, mas também a sociedade como um todo. Ao privar o setor de comunicação de talentos qualificados, a qualidade do jornalismo e do conteúdo produzido vem sendo comprometida a muito tempo. Isso é especialmente crítico em tempos de desinformação e fake news, quando o país mais precisa de uma imprensa forte, ética e diversa.

A frase inicial deste artigo, mesmo sendo uma crítica ácida, carrega uma verdade que muitos já experimentaram na pele e outros por desejarem adentrar a corrutela cultivada por uma caterva midiática lutam por omitir. O desafio é transformar essa indignação coletiva em ações concretas para promover um mercado de trabalho mais justo, transparente e acessível.