Quando o acesso a um patrimônio natural, arqueológico e cultural de Florianópolis passa a custar mais de R$ 200 por pessoa, a pergunta deixa de ser apenas turística. Ela passa a ser pública. Você paga mais de R$ 200 para conhecer um patrimônio que também é seu. Isso faz sentido? 
Por Nando Schweitzer, Jornalista e Guia de Turismo
A pergunta parece provocativa. E é justamente por isso que precisa ser feita. A Ilha do Campeche é um dos principais cartões-postais de Florianópolis. Suas praias, sítios arqueológicos, inscrições rupestres e importância ambiental fazem dela um patrimônio de enorme relevância para a cidade e para o país.
Mas existe uma contradição cada vez mais difícil de ignorar: para chegar até esse patrimônio público, o visitante depende de uma operação essencialmente turística e, em determinadas épocas do ano, pode desembolsar mais de R$ 200 pelo transporte de ida e volta.
E aqui começa o problema. Não se trata de defender acesso irrestrito, turismo predatório ou uma espécie de “liberou geral” ambiental. Muito pelo contrário. A questão é saber por que a preservação da Ilha do Campeche precisa necessariamente estar associada a um modelo de acesso que pode transformar uma visita a um patrimônio público em um produto turístico de alto valor.
QUEM CONTROLA O ACESSO?
O acesso à Ilha do Campeche é condicionado por regras ambientais e pela capacidade de visitação. Isso é absolutamente necessário. Uma ilha com fragilidade ambiental e patrimônio arqueológico não pode ser tratada como um parque de diversões.
Mas preservar não significa necessariamente terceirizar a experiência de acesso ao visitante e aceitar qualquer preço como inevitável. É aí que Florianópolis deveria começar a discutir seriamente o modelo adotado.
Por que não existe uma alternativa de transporte público ou de caráter regular, com horários definidos, quantidade limitada de passageiros, fiscalização e tarifa estabelecida dentro de uma lógica de serviço público?
A comparação com a Costa da Lagoa é inevitável. Ali existe transporte regular, integrado à dinâmica da cidade, com horários e tarifa pública. Por que o princípio não poderia ser estudado para o Campeche? A geografia é diferente. As condições ambientais são diferentes. A operação marítima é diferente.
Mas justamente por isso a discussão deveria ser técnica — e não simplesmente encerrada pela existência de empresas que já exploram comercialmente o trajeto.
TURISMO OU PRIVATIZAÇÃO DO ACESSO?
Existe uma diferença importante entre explorar turisticamente um patrimônio e controlar economicamente as condições pelas quais o cidadão consegue conhecê-lo. Uma empresa privada pode prestar um serviço. Pode transportar passageiros. Pode organizar passeios. Pode oferecer conforto e experiências diferenciadas.
O que não deveria acontecer é o cidadão chegar à conclusão de que a única maneira de conhecer um patrimônio público é comprar um pacote turístico privado. Porque, nesse momento, surge uma pergunta incômoda: quanto custa efetivamente transportar uma pessoa até a Ilha do Campeche?
Quanto em combustível? Quanto custa a tripulação? Quanto custa manutenção? Quanto custa seguro? Quanto custa licenciamento? Quanto custa a estrutura operacional? Quanto representa a limitação de passageiros?
Mas o grande questionamento que se deveria fazer é, principalmente: qual é a margem efetivamente praticada pelas empresas? Sem transparência desses números, qualquer discussão sobre preço fica incompleta. E é justamente aí que deveria entrar o poder público.
O PREÇO DA PRESERVAÇÃO
Existe um argumento que frequentemente aparece quando se questiona o preço do acesso: a necessidade de preservar a ilha. Sim. É necessário preservar.
Mas existe uma confusão perigosa entre duas coisas diferentes: preservar o patrimônio e restringir economicamente quem pode conhecê-lo. Limitar o número de visitantes pode ser uma medida ambiental. Cobrar uma tarifa elevada é outra questão. Senão o que se faz é o mesmo erro do caso da taxa de acesso ao município de Porto Belo, medida completamente ineficaz e politiqueiro que nunca chegou próximo de ser uma solução para a preservação ambiental.
Uma coisa não necessariamente justifica a outra. É perfeitamente possível imaginar um sistema em que o número de visitantes seja rigorosamente controlado, o desembarque seja monitorado, existam horários previamente definidos, sejam respeitadas áreas de proteção e haja fiscalização ambiental sem transformar necessariamente cada visita em um passeio turístico de luxo.
A tecnologia e a gestão pública já permitem sistemas de agendamento, controle de capacidade e emissão de bilhetes. Portanto, não é se o acesso deve ser controlado. Ele deve. A questão é: quem deve controlar, como deve controlar e a que preço?
QUANDO O PATRIMÔNIO VIRA PRODUTO
Florianópolis conhece bem os efeitos da transformação de seus espaços naturais em produtos turísticos. A cidade vive do turismo. Empresas precisam ganhar dinheiro. Trabalhadores precisam ser remunerados. Serviços precisam ser sustentáveis. Nada disso está em discussão. O problema começa quando o interesse comercial passa a ser confundido com interesse público.
A Ilha do Campeche não nasceu como atração turística. Ela não foi construída por uma empresa. Não é um resort. Não é um parque temático. É um território de enorme importância ambiental, arqueológica, cultural e paisagística. Seu valor não foi criado pelo mercado. O mercado apenas encontrou uma maneira de monetizá-lo. E talvez seja justamente aí que esteja a grande erro que comete Florianópolis, cidade em que ainda se não enfrentou de maneira suficientemente clara sobre este e diversos temas quanto a péssima atenção em atrações turísticas de cunho natural.
ACESSIBILIDADE TAMBÉM É PRESERVAÇÃO
Existe ainda uma dimensão social nessa discussão. Se uma família precisa gastar centenas de reais apenas para realizar o deslocamento até uma ilha que faz parte do patrimônio da própria cidade, o acesso deixa de ser universal na prática. Quem tem dinheiro vai. Quem não tem, fica olhando as fotografias.
É a velha lógica dos espaços públicos que permanecem formalmente públicos, mas se tornam economicamente seletivos. Preserva-se para todos. Conhece quem pode pagar. E isso deveria incomodar uma cidade que pretende vender ao mundo a imagem de destino democrático, sustentável e conectado à sua própria história.
NÃO É CONTRA AS EMPRESAS. É A FAVOR DO INTERESSE PÚBLICO.
É importante deixar claro: questionar o modelo não significa demonizar empresários, trabalhadores do turismo ou operadores marítimos. Eles prestam serviços e têm direito à remuneração.
Mas serviço privado não pode substituir indefinidamente uma política pública de acesso a um patrimônio público. O município, o Estado e os órgãos responsáveis pela gestão ambiental deveriam apresentar dados.
Mas cabem algumas perguntas. Existe concorrência efetiva? Há estudos sobre uma tarifa pública? Existe possibilidade de transporte regular? Quanto custaria um modelo semelhante ao da Costa da Lagoa? E, sobretudo: o preço cobrado é consequência inevitável dos custos de preservação e operação ou existe espaço para uma estrutura tarifária mais justa? Essas perguntas não são ataques ao turismo. São perguntas básicas de interesse público.
O ACESSO A ILHA DO CAMPECHE NÃO PRECISA SER BARATO, MAS PRECISA SER JUSTO!
Talvez a solução não seja simplesmente reduzir o preço. Talvez seja criar uma estrutura completamente diferente. Um sistema público ou regulado de transporte marítimo, com horários fixos, limite de passageiros, reserva antecipada, fiscalização ambiental, controle de desembarque e uma tarifa transparente.
Ao lado dele, poderiam continuar existindo serviços turísticos privados para quem deseja experiências diferenciadas, embarcações exclusivas ou outros formatos de passeio. Assim, o turismo continuaria existindo. As empresas continuariam trabalhando. E o cidadão teria uma alternativa.
Porque é exatamente isso que parece faltar hoje: alternativa. Quando existe apenas uma forma economicamente viável de chegar a um patrimônio, o visitante não escolhe. Ele aceita.
A PERGUNTA QUE FLORIANÓPOLIS PRECISA RESPONDER
A Ilha do Campeche não deveria ser transformada em um clube privado a céu aberto. Também não pode ser explorada como se fosse um território sem limites ambientais. O desafio está justamente no meio: preservar sem elitizar. Controlar sem privatizar. Regular sem impedir. E permitir que o cidadão conheça aquilo que pertence à memória e ao patrimônio coletivo da cidade.
Porque, no final, a questão é muito simples: se a Ilha do Campeche é patrimônio público, por que o acesso a ela precisa funcionar predominantemente como um passeio turístico de luxo?
Essa é uma pergunta que não deveria ser respondida apenas pelas empresas que vendem os ingressos. Deveria ser respondida pela Prefeitura, pelos órgãos ambientais, pelos responsáveis pela gestão da ilha e, principalmente, pela sociedade de Florianópolis. Porque patrimônio público não deveria significar apenas aquilo que pertence a todos.





